domingo, 8 de agosto de 2010


Como eu tinha dito, uma tradução, adaptação e versificação (para a redondilha maior) de Claudio Sousa Pereira. Promessa cumprida. Há outras, postarei durante a próxima semana.  


GUBERNATOR ET NAUTAE (Fedro)

In secundis time, in aduersis spera.
Cum de fortunes quidam quereretur suis,
Aesopus finxit consolandi gratia:
Vexata saeuis nauis tempestatibus,
Inter uectorum lacrymas et mortis metum,
Faciem secundis tuta coepit flatibus,
Nimiaque Nautas hilaritate extollere.
Factus periclo tum Gubernator sophus:
"Parce gaudere oportet et sensim queri,
Totam quia uitam miscet dolor et gaudium".


O PILOTO E OS NAVEGANTES

Espera na adversidade,
Temem na prosperidade
O piloto e os navegantes.
Em seu caso de infortúnio
Que o Destino sempre pune-o,
Consola Ésopo em instantes:

Se o choro dos passageiros
Acossados por inteiros
Sentem o medo da morte
Pela nau a adernar temem,
Através de ondas que fremem,
De uma tempestade forte.

Assim que o tempo mudou,
A face do mar serenou
Com a nau tranqüila a vogar.
Eis os ventos favoráveis,
Que os nautas consoláveis
Passaram a se alegrar.

"Alegrem-se parcamente",
Disse o piloto prudente
Pelo perigo da lida.
"Também queixem-se a contento,
Gozo e Dor a todo o momento
Misturam-se em toda a vida".


sexta-feira, 23 de julho de 2010

O poema abaixo é do querido amigo Claudio Sousa, ainda inédito em livro. Futuramente postarei aqui as traduções do Latim que Claudio fez de algumas fábulas de Fedro. 

CAMONIANO

Se há tanto tempo eu busco a fermosura
Que de ti vens, Senhora, a merecer-vos
Não sei se val a pena de querer-vos
Mas sei que me deleito em tal loucura

Que he enamorar-se de huma gran-finura
De ti vens & nunca há de padecer-vos,
He porque atiça-me o juyzo & os nervos
Mantendo-me ao feitiço da clausura.

Clausura esta, que assi, em luz fluhyda,
Vinda dos ólhos teus, tam bellos, parte,
Para çegar os meus logo em seguida.

Eu, rendido, não canso de esperar-te
Porque tua presença em minha vida
Já está n'o todo, em tudo & em cada parte.

Claudio Sousa 

sábado, 13 de março de 2010


POR LINHAS TORTAS


Nunca conheci quem tivesse escrito uma merda.
Todos os meus conhecidos têm sido brilhantes em tudo o que escrevem.
E eu, tantas vezes cego, tantas vezes burro, tantas vezes tímido,
eu tantas vezes irrespondivelmente plagiário,
indesculpavelmente preguiçoso,
eu que tantas vezes não tenho tido paciência pra consultar o dicionário,
eu que tantas vezes tenho sido ridículo, vaidoso,
que tenho cortejado os elogios fúteis e desprezado as críticas honestas,
que tenho escrito poemas grotescos, tacanhos, redundantes e pretensiosos,
que tenho deletado mais da metade do que escrevo,
que, quando não deleto, tenho me arrependido de cada poema publicado;
eu, que tenho submetido meus poemas ao julgamento de gente que eu desprezo
e tenho me sentido humilhado pelo desprezo dessa mesma gente;
eu, que não como ninguém com meus versos românticos,
eu, que não choco ninguém com meus versos satânicos,
eu, que tenho passado noites em claro pensando num advérbio ou num adjetivo,
eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que troca e-mails comigo
nunca errou uma concordância, nunca se enredou numa falácia,
nunca foi senão genial – todos eles gênios – na vida e na literatura…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
que confessasse, não um bloqueio criativo, mas uma ingenuidade;
que contasse, não que seu livro não vendeu, mas que não valia o preço de capa!
Não, são todos mestres de Homero e instrutores de Shakespeare,
se os ouço e se falam comigo.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez escreveu uma frase feita?
Ó gênios, meus irmãos,
caralho, estou de saco cheio de Rimbauds e Mallarmés!
Onde é que há gente no mundo?

Então só eu que sou burro e pouco original nesta terra?

Poderão ter sido achincalhados pela crítica,
podem ter sido ignorados por Deus e o mundo,
mas terem escrito uma frase ridícula, nunca!
E eu, que tenho escrito frases ridículas cotidianamente,
cercado por tantos gênios, como posso querer ser lido com atenção?
Eu, que tenho sido estúpido, literária e literalmente estúpido,
estúpido no sentido simplório e bruto da estupidez.

Marco Catalão
é poeta, ficcionista e tradutor. Publicou seu primeiro livro, Antes de amanhã, em 2008. Desde então, recebeu diversos prêmios, dentre os quais se destaca o primeiro lugar no Concurso Nacional de Contos Luiz Vilela. "Por linhas tortas" pertence ao livro inédito O Cânone Acidental.

As informações sobre o poeta e o poema acima foram retiradas do Suplemento Literário de Minas Gerais.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

sábado, 27 de fevereiro de 2010

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Estive fora uns dias. O carnaval não existiu. Aqui. Digo: no meu corpo. Só nuvens, talvez cinzas. Abaixo um poema recente.

45.

O mistério é o limite...
Carvalho Filho


Deus é o limite

Por mais tenso o arco
e agudo o ímpeto

quedará
inviolável
o seu cerne

Não há mar que se redime

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

31 –
Nu


A ordem gritada e a
possibilidade cumprida:


– Sem roupa!
– Sem pele!
– Desossa!


A ordem esganiçada pela
impossibilidade de cumpri-la:


– Sem alma!

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